Discurso De Posse Como Presidente Do Nucleo Mossoroense Da Uniao Brasileira De Escritores Ube

Cumprimentos…

É das mais honrosas a incumbência que recebemos, em histórica sessão da A-MOL, para dirigir o núcleo mossoroense da União Brasileira de Escritores. Quero agra-decer em nome de todos os que, aclamados naquela ocasião, acabam de ser festivamente empossados pelo presidente nacional da UBE.
Quero por igual, assinalar a alegria de que esse ato de posse ocorra durante se-mana tão festiva, em que vários institutos culturais mossoroenses, prestam merecida homenagem ao professor Jerônimo Vingt-un Rosado Maia, nos seus setenta anos.
Não será sem escolhos o desempenho da função que nos foi confiada, pois a his-tória traçada desde os tempos coloniais, mostra que em nosso país, só com muito sacri-fício se avança contra as brumas da ignorância. Dos albores da pátria aos dias atuais, pouca mudança houve com respeito aos percalços que se tem que enfrentar se o intento é cultural.
As dificuldades vêm do nascedouro, pois não se haveria de esperar elevadas ma-nifestações artísticas e culturais dos nossos primeiros povoadores: degredados e cris-tãos-novos, em sua imensa maioria.
Houve exceções. Bento Teixeira introduziu o Barroco no nosso país e fez de Pernambuco a pátria da literatura brasileira, com o poemeto de inspiração camoniana – “Prosopopéia”; Ambrósio Fernandes Brandão contribuiu com o “Dialogo das Grandezas do Brasil” e poderíamos acrescentar ainda, Branca Dias que fez funcionar em Pernam-buco, no século XVI, uma pioneira escola para meninas. Estes são os pioneiros da cultu-ra nacional, marginalizados da casta sefaradita.
Demoraríamos bastante até que indiretamente nos ajudasse Napoleão, já no sé-culo XIX, empurrando para cá a família real. Ganhamos, então, uma tipografia, desta vez sob o patrocínio da coroa que havia anteriormente inibido iniciativas particulares, com receio da propagação das idéias francesas. Mas houve a outra face da moeda: a formação naquele instante da nossa “eficiente” classe dominante.
Os quase 15.000 fâmulos portugueses que acompanharam a família real, quase que refundam o Brasil, como diz Darci Ribeiro: “Com eles nos vinha, de graça, toda aquela sabedoria política secular de conviver e sobreviver ao lado dos espanhóis, bri-gando e não brigando, toda aquela sagacidade burocrática de enriquecer e de man-dar.”Essa classe dominante promoveu façanhas no pais, das quais, parece que a mais notável tem sido manter o nosso povo ignorante e iletrado até hoje.
No transcorrer de todos esses séculos de colonização, ora por portugueses, de-pois por outros senhores, a tônica tem sido o descaso para com as coisas do espírito, para com a educação. Salvam-se, contudo, aqui e ali, algumas ações isoladas de abne-gados que em todas as épocas mantem o fogo sagrado da cultura.
É interessante ver, como ilustração da resultante dessa política, a pobreza livres-ca dos nossos inventários. Ao lado das mobílias de pau amarelo, dos oratórios, dos cria-dos mudos, das retretelas (bacias sanitárias), tinas e gamelas, encontram-se até perucas, como noticia Olavo de Medeiros Filho, estudando as velhas famílias do Seridó, livros, porem, uma raridade. Raridade que espanta e denuncia como os quarenta livros do pa-dre Manuel Luis de França, pároco de Baturité, do século XVIII, verdadeira biblioteca para a época. O padre era tio do também clérigo Francisco de Brito Guerra, fundador da imprensa no nosso Estado.

Não demonstrariam maior riqueza cultural, os inventários atuais. Nem de um povo mergulhado em profunda ,miséria material, haver-se-ia de exigir outra preocupa-ção senão a sobrevivência.
Por tudo isso, é até ato de bravura assumir, como agora assumimos, os destinos de uma associação que procurará congregar as mais lídimas inteligências da cidade, com a intenção de lhes proteger e promover o patrimônio cultural.
Das dificuldades desta empresa há de se perguntar ao homenageado desta sema-na e desta noite, que está acostumado a enfrenta-las e vence-las.
E se é tarefa pesada para uma equipe, quanto mais não deve ter sido para ele quase sozinho, ao longo de toda vida, produzir, distribuir e incentivar a cultura. Aos setenta anos muitas histórias deve ter para contar. Amarguras, incompreensões calca-as para o interior, não transparecem.Visível para nós apenas seu “curriculum”. Nele se encontram obras publicadas, bibliotecas, escolas, grêmios culturais. Tudo contra a cor-rente, teimosamente contradizendo o atraso material e cultural da nossa ambiência, ven-cendo a má vontade.
Destaquemos, pois, o momento em que se oficializa a criação do núcleo da UBE e festejam-se os setenta anos deste homem ilustre. Porque com isso homenageamos o passado, plantamos para o futuro e nos inserimos na história cultural da cidade com a consciência de sermos partícipes desta saga de abnegados que teimam em promover cultura no Brasil.

Muito Obrigado.

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