Lançamento do livro Reflexoes Dentro da Noite, de Damião Sabino

Minhas senhoras, meus senhores

Enquanto os truculentos senhores da guerra estraçalham a paz do mundo, aqui nos reunimos, pacificamente como num front da inteligência, para o lançamento de uma obra literária.Também devemos combater, mas ouvindo ao pregador, que nos admoestou e incentivou ao bom combate. Nos variados caminhos a que nos conduz o destino,travemo-lo norteados pelos nobres ideais do pensamento. O uso da força bruta na solução dos problemas humanos, é claro indício de que não aprendemos as lições tomadas `sangue e ferro no passado.

Damião Sabino tem travado o bom combate. A prova nos tem dado, através dos seus livros. Reflexões dentro da Noite é bem a prova disto: uma vitória do espírito.

Na verdade, o real sabor desta obra é mais íntimo do autor, que sabe, como poucos, o que é enfrentar a maré contrária para extrair o que tem de melhor, das entranhas de intelectual deste injustiçado Terceiro Mundo. Esta garimpagem interior, afirma Damião, foi realizada à noite ajudada pelo adormecer dos desarmônicos ruídos da atividade humana, e pelo despertar dos mágicos signos noturnos, cujos significados nos são desvelados apenas pela alma em silencio e meditação.

Nota-se, na obra, que a ganga riquíssima de onde vem suas reflexões, foi formada ao longo da existência, pelo amálgama de lágrimas e dores, que aos poucos vai desbastando em gemas preciosas. Tal, o belo cântico que dedicou à sua mãe, úmido de sinceras lágrimas. São palavras de todos nós, que talvez não tenhamos tido a oportunidade ou a coragem de dizer.

A mim, tocou profundamente, porque também fiz minha mãe sofrer, embora sem culpa. Muitas vezes a vi, pelos cantos, contendo as lágrimas, por ter ouvido dizer, à boca pequena, que aquele menino alourado não podia ser filho de negra. Naqueles instantes dolorosos, impediu-me, o temperamento retido e tímido, de dizer como o autor das Reflexões:

Eu ti amo mãezinha
…………………………….
Sofro mais no meu íntimo

Certa vez, mania minha, perguntei ao autor, pela sua genealogia. Tergiversou. Preferiu que eu o tivesse por Malquisedeque a quem Abraão deu o décimo do que possuía: sem genealogia, porém, Rei de Salém, que significa paz, de que hoje está carente o mundo.Aí, termina, contudo, a comparação, pois em antítese, Damião deu-nos não apenas uma parte, o décimo, mas descobriu-se todo e mostrou seu coração nas suas reflexões. Estas, a despeito de gestadas ao longo da vida, pospõe-se à outras preocupações do autor.

Antes, este jovem negro e pobre, já manifestara seu amor pela cidade, onde muito branco e rico apenas vegeta, estudando-lhe o passado, fixando os contornos biográficos de alguns dos nossos maiores, enriquecendo a nossa história. Cito dois exemplos. Primeiro, Encontro com uma década, trabalho que fixa a memória de uma geração, de um dos bairros mais carentes da cidade. Depois, lembro dos Patronos dos Educandários de Mossoró, na mesma vertente de Raimundo Soares de Brito, pesquisador tenaz da história do Oeste Potiguar, onde procura resgatar, do esquecimento, dezenas de educadores, muitos deles condenados, pela nossa cotidiana ingratidão, a habitar apenas os porões d nossa história.

Senhores, honrou-me, o autor destas Reflexões, com o convite para apresentá-lo e a sua obra, nesta noite feliz, convencendo-me com um único argumento: porque você é um homem simples. Num instante nos entendemos perfeitamente sobre o significado disso, sem mais palavras. Aliás, faz tempo busquei um Salmo com que me identificar, e que dentro da noite, me servisse de oração. Com certeza também lhe serve. Salmo 131 do Livro Sagrado:

Senhor, não é soberbo o meu coração
nem altivo o meu olhar;
não ando à procura de grandes cousas,
nem de cousas maravilhosas demais para mim.
Pelo contrário, fiz calar e sossegar a minha alma;
como a criança desmamada se aquieta nos braços de sua mãe, como essa criança é a minha alma, para
Contigo.
Espera, ó Israel, no Senhor desde agora e para sempre.

Por isto, não quero e não devo julgá-lo apenas pela produção literária; não devo e não quero apresentá-lo, agora, senão como irmão de mesmas origens negras e pobres dos bairros de Mossoró, e ao seu trabalho como vitória contra a discriminação e a miséria.

Muito Obrigado

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